A humilhação da violência doméstica sofrida por mulheres
BARRA MANSA
“Quando apanhei pela primeira vez achei que era uma bobeira, uma fatalidade que não iria acontecer mais, uma discussão de casal. Anos se passaram e um dia acordei numa cama de hospital, não sabia nem como fui parar lá. Demorei a perceber a violência que sofria, assim como a Justiça demora a aplicar a Lei Maria da Penha”. O relato acima é de Maria, 36 anos, que sofreu durante três anos com as agressões de seu ainda marido. A violência a deixou com depressão, tanto que ela passa dias sem sair de casa.
Segundo Maria, apesar de estar separada há dois anos a dor ainda é muito grande, principalmente por causa da impunidade. “A lei é só no papel, na verdade muito lenta. Há dois anos tento fazer meu ex-marido pagar pela violência que sofri. São milhares de registros de ocorrência, audiências no Fórum e exames de corpo de delito, e pode acreditar, ele nunca foi preso”, desabafa.
O drama da mulher começou depois de três anos de casada. Grávida, descobriu que o marido tinha uma amante. Ao tirar satisfação com ele acabou apanhado, e a cena iria se repetir diversas vezes, até que Maria denunciou o agressor na polícia.
De acordo com Maria, o ex-marido não queria sair de casa nem concordava com a separação. Depois de vários registros de ocorrência, veio a primeira audiência, que quase causou a morte dela. “Ele compareceu com uma cara de santo, concordou com tudo que o juiz falou, porém quando chequei em casa, à noite, ele me esperava com um martelo não mão. O primeiro golpe seria no rosto, mas coloquei o braço na frente, depois disso não me lembro de mais nada”, relembra.
Maria ficou internada por quase um mês no hospital e como sequela perdeu 40% dos movimentos do braço direito, a dignidade e a vontade de viver. Desde que se separou tenta a prisão do ex-marido, que desapareceu depois de agredi-la com martelo.
Para Silvia, 42 anos, o primeiro tapa que tomou no rosto do marido já era indícios de que não existia mais respeito de um pelo outro. Mas, por causa dos filhos, resolveu aguentar a situação. “A humilhação é muito grande, pois você não é agredida somente fisicamente. É uma agressão psicológica e moral, eu me sinto a pior das mulheres”, comenta.
Na luta para manter a família e a estabilidade do casamento, Silvia acabou se perdendo para o álcool e as drogas. O filho caçula acabou ficando viciado em crack. “Meu marido virou um alcoólatra e por conta disso ficou mais violento. Um dia tentei conversar com meu filho sobre os problemas causados pelas drogas. Ele simplesmente levantou e me deu um tampa, com o argumento de que se o pai podia, ele também. Fui embora de casa naquele dia”, conta Silva.
Atualmente ela mora com a filha mais velha num barraco emprestado por uma irmã. Sua intenção é recuperar a dignidade, para tentar colocar o ex-companheiro na cadeia, e ainda ajudar o filho a largar as drogas.
A série Na sombra de ilegalidade é publicada às terças-feiras. A próxima reportagem trará novos relatos de vítimas e também as falhas na aplicabilidade da Lei Maria da Penha, nos casos de violência doméstica.

Nenhum comentário:
Postar um comentário